Carro por assinatura ou carro usado: a conta completa antes de decidir
A assinatura promete carro novo sem IPVA, seguro nem revisão para pagar. Veja o que entra na mensalidade, o que fica de fora, como comparar com a compra de um usado e o que acontece com esses carros quando o contrato acaba.
A propaganda é sedutora: carro zero na garagem, sem entrada, sem IPVA, sem seguro para contratar, sem revisão para agendar. Uma mensalidade fixa e pronto. Em poucos anos o carro por assinatura deixou de ser novidade de nicho e virou concorrente direto da compra, oferecido por locadoras, montadoras, concessionárias e até bancos.
Só que a comparação que aparece no anúncio quase nunca é a comparação certa. A mensalidade é colocada ao lado da parcela de um financiamento de carro zero, e aí a assinatura parece imbatível. A conta muda bastante quando o outro lado da balança é um usado bem escolhido, pago à vista ou com parcela curta, e quando entram na conta a quilometragem, as multas, a franquia do seguro e o fato de que, no fim do contrato, você devolve a chave e não fica com nada.
Este guia mostra o que a assinatura cobre e o que não cobre, como montar a comparação honesta com um usado, para quem cada caminho faz sentido e o que acontece com esses carros quando o contrato acaba, porque boa parte deles vai parar justamente no mercado de seminovos.
Como funciona o carro por assinatura
Na assinatura você não compra o carro: aluga por um prazo longo, normalmente de 12 a 36 meses, às vezes 48. O veículo continua registrado em nome da empresa que oferece o serviço, e você paga uma mensalidade fixa durante todo o contrato.
Em troca, a empresa assume quase todos os custos de propriedade. Ela paga o IPVA e o licenciamento, contrata o seguro, faz as revisões programadas e oferece assistência 24 horas. Para você sobram o combustível, os pedágios, a lavagem e, como se verá adiante, algumas despesas que só aparecem quando algo dá errado.
Antes de assinar, a empresa faz análise de crédito e exige CNH válida, às vezes com tempo mínimo de habilitação. O contrato define o modelo, a cor, o prazo e, o ponto que mais pesa no bolso, o pacote de quilometragem mensal.
O que a mensalidade cobre (e o que fica de fora)
A lista do que está incluído costuma ser parecida entre as empresas:
- IPVA e licenciamento anual;
- seguro contra colisão, roubo, furto e terceiros;
- manutenção preventiva dentro do plano do fabricante;
- assistência 24 horas, guincho e, em alguns contratos, carro reserva;
- emplacamento e documentação inicial.
A lista do que fica de fora é a que define se o negócio é bom:
- Quilometragem excedente: passou do pacote contratado, cada quilômetro a mais é cobrado à parte, e o valor por quilômetro costuma ser alto;
- franquia do seguro: numa batida, a franquia é sua, igual a um seguro comum;
- multas de trânsito, que chegam no nome da empresa e são repassadas a você, muitas vezes com taxa administrativa;
- desgaste fora do normal: riscos, amassados, rodas raladas, bancos manchados e pneus gastos além do previsto são cobrados na devolução;
- multa rescisória se você precisar devolver antes do prazo;
- combustível, pedágio e estacionamento, como em qualquer carro.
Nenhum desses itens é escondido: está tudo no contrato. O problema é que eles quase nunca entram na conta que a pessoa faz de cabeça na hora de decidir.
A comparação certa é com o usado, não com o zero financiado
Comparar assinatura com financiamento de zero quilômetro é comparar duas formas caras de ter carro novo. As duas carregam o maior custo de um carro, que não aparece em boleto nenhum: a depreciação. Um carro novo perde valor mais depressa nos primeiros anos, e quem paga essa perda é quem fica com ele nesse período, seja o dono, seja a empresa de assinatura, que embute a perda na mensalidade.
O usado de três ou quatro anos já passou pela fase de queda mais forte. Ele continua perdendo valor, mas num ritmo menor, e no fim de alguns anos o dono ainda tem um bem para vender ou dar na troca. É por isso que a pergunta útil é outra: quanto custa, por mês, ter um usado bom durante o mesmo período do contrato de assinatura?
Como montar a conta do usado
Some, para o mesmo prazo do contrato (digamos 24 meses):
- o preço de compra do usado;
- IPVA e licenciamento dos dois anos;
- seguro anual, cotado para o seu perfil e o seu CEP;
- manutenção: revisões, pneus, freios, bateria, com uma reserva para imprevistos;
- os juros, se houver financiamento, ou o rendimento que o dinheiro teria aplicado, se a compra for à vista.
Depois subtraia o valor de revenda estimado ao fim do período. A tabela FIPE do mesmo modelo dois anos mais velho dá uma boa referência. O resultado, dividido pelo número de meses, é o custo mensal real do usado.
Um exemplo ilustrativo
Os números abaixo são hipotéticos e servem só para mostrar o raciocínio. Os valores reais variam muito por modelo, cidade e perfil do motorista.
Imagine um compacto de quatro anos comprado por R$ 70 mil à vista. Em 24 meses ele gasta, digamos, R$ 6 mil de IPVA e licenciamento, R$ 7 mil de seguro e R$ 5 mil de manutenção. O dinheiro parado no carro deixa de render algo como R$ 14 mil no período. Ao fim, o carro é vendido por R$ 60 mil. A conta fica assim: R$ 70 mil mais R$ 32 mil de custos, menos R$ 60 mil de revenda, dá R$ 42 mil em dois anos, ou R$ 1.750 por mês.
Agora coloque ao lado a mensalidade da assinatura de um carro equivalente, novo, já somando o que ela não cobre no seu caso: a quilometragem que você roda de verdade, a franquia de uma eventual batida e a chance de pagar algum reparo na devolução. É essa soma, e não a mensalidade sozinha, que vai contra os R$ 1.750 do exemplo.
Quando a assinatura faz sentido
Há perfis para os quais a assinatura é escolha racional, não só conveniência:
- Quem não quer dor de cabeça com seguro, revisão, IPVA e venda, e aceita pagar por isso;
- quem roda pouco e de forma previsível, cabendo com folga no menor pacote de quilometragem;
- quem precisa de carro por um período definido, como uma mudança temporária de cidade ou um projeto de dois anos;
- empresas, que podem lançar a mensalidade como despesa e não imobilizam capital em frota;
- quem teria dificuldade para conseguir seguro com preço razoável no próprio nome, já que o seguro é da empresa.
Também pesa o fato de não haver risco de revenda. Se o mercado de usados cair, quem sente é a empresa, não você.
Quando o usado sai na frente
Do outro lado, o usado costuma ganhar com folga em alguns cenários:
- Quem roda muito: viagens frequentes, aplicativo, trabalho na estrada. O excedente de quilometragem desmonta a vantagem da assinatura;
- quem pretende ficar com o carro por muitos anos: depois de quitado, o usado custa só a manutenção, o seguro e os impostos, enquanto a assinatura cobra para sempre;
- quem tem filhos pequenos, cachorro ou usa o carro para carga, porque o desgaste vira cobrança na devolução;
- quem quer personalizar: engate, película, som, adaptação. Na assinatura, quase tudo isso é proibido ou precisa ser desfeito;
- quem quer construir patrimônio: ao fim de dois anos de assinatura, você não tem carro para dar de entrada no próximo.
Os custos escondidos da assinatura, em detalhe
Quilometragem
É o item que mais surpreende. Pacotes comuns ficam entre mil e dois mil quilômetros por mês, e muita gente subestima quanto roda. Faça a conta pelo seu histórico, não pela impressão: quilometragem do painel hoje, menos a de um ano atrás, dividido por doze. Some as férias e as viagens de feriado, que fogem da média.
Multas e pontos
Como o carro está em nome da empresa, a notificação chega para ela, que indica você como condutor. Os pontos vão para a sua CNH normalmente, e a multa é cobrada de você, às vezes com taxa de processamento. Perder o prazo de indicação pode gerar multa adicional por não identificação do condutor, que também acaba repassada.
A devolução
No fim do contrato, o carro passa por vistoria. A empresa compara o estado dele com o que considera desgaste normal para a idade e a quilometragem, e cobra o que estiver fora. Fotografe o carro na retirada, com data, e guarde o laudo de entrega. Na devolução, peça a vistoria por escrito antes de assinar qualquer coisa.
Saída antecipada
Perdeu o emprego, mudou de cidade, a família cresceu e o carro ficou pequeno? Devolver antes do prazo costuma custar uma multa calculada sobre as mensalidades restantes. Leia essa cláusula antes de assinar, porque é a que mais pesa quando a vida muda de rumo.
O que acontece com o carro quando o contrato acaba
Aqui a assinatura encontra o mercado de usados. Quando o contrato termina, a empresa raramente fica com o carro: ele é vendido, geralmente com dois ou três anos de uso, pelas lojas de seminovos das próprias locadoras, por revendas parceiras ou em leilões de frota.
Isso significa que, mesmo que você nunca assine nada, é bem possível que o próximo usado que você olhar tenha sido carro de assinatura. E esse carro tem particularidades que valem atenção, parecidas com as de qualquer carro ex-locadora ou ex-frota:
- Vários motoristas: um carro de assinatura pode ter passado por mais de um assinante, cada um com um jeito de dirigir;
- manutenção em dia, mas no mínimo: a empresa faz o que o plano exige, sem ir além, e peças de desgaste podem estar no limite;
- sinistros pagos pelo seguro da empresa: uma batida séria pode ter sido consertada e o carro devolvido à frota;
- proprietário pessoa jurídica no histórico, o que por si só não é problema, mas explica a quilometragem e o padrão de uso.
Por outro lado, muitos desses carros têm vantagens reais: revisões feitas na rede autorizada, histórico de manutenção registrado e garantia de fábrica às vezes ainda vigente. A diferença entre um bom negócio e uma dor de cabeça está no histórico, e o histórico não aparece no brilho da pintura.
Como conferir um seminovo que veio de assinatura
Antes de negociar qualquer seminovo, especialmente um de frota, faça a checagem em camadas:
- Consulte a placa: ela mostra se houve registro de sinistro, passagem por leilão, roubo ou furto, restrições, gravame e débitos. É o que o carro não conta sozinho;
- peça o histórico de revisões, com data, quilometragem e oficina de cada uma;
- compare a quilometragem do painel com a das revisões e com a idade do carro. Carro de assinatura roda dentro do pacote, então números muito altos ou muito baixos merecem pergunta;
- faça laudo cautelar para conferir estrutura, chassi e motor, como explicado no guia sobre consulta de placa, laudo cautelar e vistoria;
- leve um mecânico de confiança para avaliar suspensão, embreagem e freios, que sofrem com vários motoristas;
- confira a transferência: saindo de pessoa jurídica, a documentação de venda precisa estar completa. O passo a passo está no guia de transferência de veículo.
O checklist para comprar carro usado reúne todos esses pontos numa lista só, para levar no celular.
Perguntas para fazer antes de assinar
Se a assinatura parecer o caminho certo para você, leve estas perguntas para a empresa e peça as respostas por escrito:
- Qual o valor exato do quilômetro excedente, e posso mudar de pacote no meio do contrato?
- Qual a franquia do seguro, e ela muda em caso de perda total ou roubo?
- Qual o critério de desgaste normal na devolução, e existe tabela de valores?
- Quanto custa devolver o carro antes do fim do contrato?
- A mensalidade é reajustada durante o contrato? Por qual índice?
- Existe carro reserva em caso de manutenção ou sinistro?
- Posso comprar o carro no fim do contrato? Por qual valor?
Com essas respostas na mão, a comparação com o usado fica objetiva, e a decisão deixa de depender do tom do anúncio.
Perguntas frequentes
Carro por assinatura vale mais a pena que comprar usado?
Depende do quanto você roda e por quanto tempo quer o carro. Para quem roda pouco e quer praticidade por dois ou três anos, a assinatura pode compensar. Para quem roda muito ou pretende ficar com o carro por bastante tempo, um usado bem escolhido costuma custar menos por mês, porque já passou pela fase de maior depreciação.
O que está incluído na mensalidade do carro por assinatura?
Em geral, IPVA, licenciamento, seguro, manutenção preventiva e assistência 24 horas. Ficam de fora combustível, pedágio, multas, franquia do seguro em caso de sinistro, quilometragem acima do pacote e reparos de desgaste fora do normal na devolução.
Quem paga as multas do carro por assinatura?
O assinante. A notificação chega para a empresa, que indica você como condutor. Os pontos vão para a sua CNH e o valor da multa é repassado, às vezes com taxa administrativa.
O que acontece se eu rodar mais quilômetros do que o contratado?
Cada quilômetro excedente é cobrado à parte, pelo valor definido no contrato. Como esse valor costuma ser alto, quem estoura o pacote com frequência perde a vantagem da assinatura. Calcule sua média real antes de escolher o plano.
Posso devolver o carro por assinatura antes do fim do contrato?
Pode, mas quase sempre com multa rescisória, calculada sobre as mensalidades que faltam. Leia essa cláusula com atenção antes de assinar, porque ela pesa justamente quando a vida muda de rumo.
Vale a pena comprar um seminovo que foi carro de assinatura?
Pode valer, porque costuma ter revisões feitas na rede autorizada e histórico organizado. Mas teve vários motoristas e pode ter passado por sinistro pago pelo seguro da empresa. Consulte a placa, peça o histórico de revisões e faça laudo cautelar antes de fechar.
Como saber se um usado foi carro de assinatura ou de locadora?
A consulta de placa mostra o histórico do registro, incluindo indícios de sinistro e leilão, e o próprio vendedor costuma informar a origem quando é loja de seminovos de locadora. Revisões muito regulares na rede autorizada e quilometragem compatível com uso de frota também são pistas.
Antes de decidir, confira o histórico
Assinar ou comprar é uma decisão de conta e de estilo de vida, e as duas respostas podem estar certas. O que não muda é que, se a escolha for o usado, o carro que parece perfeito no anúncio pode ter um passado que não aparece na lataria: leilão, sinistro, roubo recuperado, financiamento em aberto. Isso você não vê no carro, só no registro.
Antes de negociar, consulte a placa na AutoCapivara. A prévia é gratuita e mostra o que está pendente no histórico do veículo antes de você pagar qualquer coisa.
O histórico não está no anúncio. Está na placa.
Leilão, sinistro, gravame, restrições e débitos em minutos. Sem assinatura, a partir de R$ 39.